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Texto » Sacha Medeiros |
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Cláudia Efe é loira, bem loira, aliás, tem os cabelos de um amarelo quase branco, lisos. Tem a pele muito branca, também. Quem a visse na Côte D’Azur a passear um Lulu pela trela não estranharia, apostamos. Mas isso não seria fácil. Mais fácil é encontrá-la na Zona J, em Chelas, onde cresceu e onde, de vez em quando, vai visitar a mãe e o irmão. A Zona J, que tem fama de ser um dos bairros mais perigosos de Lisboa. Mas será mesmo assim? A Cláudia, nossa entrevistada na secção “Lisboetas”, diz que não, nem por isso… Nasceste aqui? Nasci em são Jorge de Arroios, mas não cresci aqui. Primeiro, fui para os Olivais, até aos cinco anos, depois estive um ano na Holanda e quando regressámos fomos para a Zona J. E a partir dos sete anos, até aos 28, vivi na Zona J. Na parte dos bairros sociais? Sim. Na altura era um projecto novo que pretendia misturar pessoas, era do Tomás Taveira, tinha projectos de lojas, piscinas, courts de ténis, escritórios, depois, com o Abecassis mudou porque começou a pôr lá toda a gente, pessoas que vinham dos países africanos de expressão portuguesa. Tinham que os pôr nalgum lado e a Zona J foi o primeiro sitio que ele arranjou. As lojas foram transformadas em casas, muitas sem condições e aquilo ficou assim um bocado estranho. Mas ainda bem que ficou assim um bocado estranho, porque acabou por dar às pessoas e ao bairro umas características muito próprias. Tem fama de ser um bairro violento. Sentias isso quando lá vivias? Sabia de certas histórias, das lutas de cães, por exemplo, que é o que mais impressiona… E havia de vez em quando os seus tiroteios… Ouvias tiroteios?!!! Sim. E houve rusgas enormes no bairro. Passei por algumas delas, observei, passava a polícia encapuçada, com um ar ameaçador…. Eras uma miúda de rua? Sim. Quando cresci não era um bairro violento. Andava na rua descalça, de manhã até a meia-noite, uma da manhã. Lembro-me da minha avó vir à janela “Cláudia vem para casa já é tarde”. Nós estávamos a jogar, éramos sempre um grupo de miúdos enorme… Noites incríveis, em que jogávamos até tarde, futebol, futebol humano, seruma, piolho. O teu grupo incluía também filhos de emigrantes? Sim, sim, era tudo muito misturado. A minha amiga de infância é de Luanda, veio muito nova, eram cinco irmãs, um grupo bem giro de miúdas e alguns miúdos. E havia também o meu irmão, que era um bocado ostracizado porque era novo de mais e nós não queríamos brincar com ele. Era um grupo bem giro, dávamo-nos todos muito bem. Havia também as etnias ciganas, bastante, embora hoje em dia já não os veja tanto por lá. Também tinhas amigos ciganos? Esses não se davam tanto. Havia uma miúda que era a Carla, que de vez em quando brincava connosco, mas eles eram um bocado mais fechados. E havia o irmão mais velho, que era o Damas… Por acaso não terá sido a tua primeira paixão? Não, ele é que era apaixonado por uma das irmãs dessa minha amiga, a São. E havia ali uma certa química. Mas à medida que fomos crescendo começaram a entrar as drogas… Deteriorou muito as relações entre os jovens? Sim, separou toda a gente. Para além da vida normalmente separar toda a gente, porque casam, saem dali, etc. Mas com as pessoas que iam ficando, as relações iam-se deteriorando por causa disso. Formou-se o grupo dos junkies… Apareceram os primeiros assaltos, embora não acontecessem muito ali dentro. As pessoas conheciam-se todas e só mesmo quem precisasse muito da droga é que, já por desespero, fazia isso. Assaltos era mais a carros. E hoje continuas a lá ir? Sim, vou lá sempre. A minha mãe continua lá a viver com o meu irmão e a minha amiga de infância também, com uma irmã. E sentes-te bem quando lá vais, gostas de lá ir? Sim, sempre adorei aquele espaço. Sentia-me uma “outsider”, de alguma forma, mas gostava de sentir esse contraste entre mim e o sítio em que eu vivia. Achava exótico, sempre achei. Tenho a minha infância muito marcada por aquele bairro, foi muito rica, muito aconchegante, muito apertado entre as pessoas. Não me consigo esquecer, nem perder esse laço com o bairro. Por isso, para mim será sempre um sítio bom, não tenho medo de lá entrar nem de estar, nem de passar por ninguém. Sei como reagir, como lidar com as pessoas e mesmo com aquelas que eu já não conheço, mas que, de alguma forma, se apresentam já com um lado mais ameaçador. Há sempre um impacto que gostam de dar. Conheço muito bem e não me sinto nada ameaçada. Tenho inclusive amigas que foram para lá morar posteriormente. Mas é um bairro incrível, eu adoro, pelo conjunto de etnias que juntou, o conjunto de gente que juntou, ajuda a teres a noção do mundo. Presumo, portanto, que sejas adepta de um certo multi-culturalismo… Até mais ninguém saber quem é quem, de onde é que veio. Até ficarmos todos da mesma cor e vestirmos todos de igual e cada vez que um pensa o outro pensa igual. Sou adepta! Mas Lisboa já tem esse lado bem vincado, não? Bem, agora moro também num bairro desse tipo. Eu adoro andar nas ruas e ouvir vozes diferentes, línguas diferentes, andar nas lojas e não perceber o que estão a falar. E musicalmente, essas vivências foram importantes para ti? Foi lá que começaste a gostar de música, certamente… Nasci em 74, quando começaram os computadores, videoclips, etc. E no meu bairro havia sempre alguém que abria a janela, ligava a aparelhagem e ouvia-se no bairro todo… Qual a tua primeira grande influência musical? Foi o “Tubular Bells”, do Mike Oldfield. Eu queria ser bailarina, porque uma vez vi um filme, com a Vanesssa Redgrave a fazer de Isadora Duncan [Isadora, 1968] e a partir desse momento cresci bailarina. Puseram-me numa escola e um dia, o meu pai, às 11 da noite, pôs esse disco e eu fiz-lhe um bailado. E como gostou muito, recorria sempre ao Tubular Bells para eu dançar para ele. Depois vem o “Thriller” do Michael Jackson, que marcou mesmo a sério. Fiquei apaixonada durante uns tempos pelo Michael Jackson e a seguir veio também o Prince. Depois havia um disco dos Mler Ife Dada, também. E então apareceram os amigos de uma área mais dark, com os The Cure, New Order, etc… Ias ver muitos concertos? A primeira memória que tenho é de um concerto de Pixies, no Coliseu. Foi incrível… |
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